O Espelho de Vidro e a Fonte de Ouro

O quarto estava em silêncio, o mesmo silêncio que, meses atrás, parecia gritar. Ela olhou para o diário digital e percebeu que fazia tempo que não passava por ali. Ao reler suas notas antigas, sentiu um nó no peito: a dor aguda do término havia se transformado em um peso surdo, uma sensação incômoda de fracasso.

"Fui trocada de novo?", ela escreveu, sentindo o peso daquelas palavras. "Deixada de lado outra vez?". No reflexo do monitor, ela buscava onde havia errado. Questionou se suas maiores virtudes — o carinho, a sinceridade, a amizade leal — teriam se tornado defeitos em um mundo que parece valorizar o que é passageiro. Viver só era um desafio, mas a busca por um "alguém para a vida" parecia uma trilha cada vez mais íngreme.

Ela se levantou e parou diante do espelho. Olhou para as próprias mãos, mãos que tanto cuidaram, que tanto seguraram as mãos de outros para que eles não caíssem. Percebeu, então, uma verdade dura: havia dedicado quase metade de sua vida tentando preencher o vazio de quem nunca soube amá-la de verdade. Tinha sido uma fonte de ouro jorrando em baldes furados.

Foi nesse momento que o cansaço se transformou em clareza.

— Antes de amar o outro, eu preciso me amar — sussurrou para o reflexo. — Talvez o que faltou não foi amor dos outros, mas o meu próprio.

Ela não aceitaria mais as migalhas de uma troca injusta. Ali, diante de si mesma, ela fez um pacto silencioso, mas inquebrável. Se ela tinha sido capaz de dedicar uma vida inteira a quem não merecia, imagine o que seria capaz de fazer se voltasse toda essa dedicação para si mesma?

Ela sorriu, e o espelho pareceu brilhar. "Vou ser feliz comigo antes de mais nada", pensou. O fracasso que sentia não era dela, mas de quem não soube receber o que ela tinha de melhor. A partir daquele dia, a prioridade seria o romance mais longo e importante de sua existência: o encontro definitivo com sua própria alma.


DandaSt 16/01/2026

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